segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Coisas que acontecem, pt 04.

Eu me sentia totalmente confortável a falar sobre qualquer coisa quando estava com ela, e saberia que ela teria uma opinião, às vezes bem chata, sobre o assunto.
Mas as coisas estavam simples demais pro meu gosto.
Um mês depois, percebi algo que tentara evitar por todo esse tempo: estava apaixonado por Sabrina. Pensava nela quase como na mesma proporção em que respirava... Tudo a minha volta trazia consigo um pedaço dela.
Era tarde, não tinha mais volta. Meu ego, antes tão poderoso, agora parecia sumir inteiro. Nunca consegui vencer uma única “batalha” contra ela... Maldito coração besta que não faz nada certo, me espanta o fato dele ainda saber bombear o meu sangue.
Ficando calado
Estávamos cabulando aula. Era algo quase inédito em minha vida, talvez essa fosse a terceira ou quarta fez que estivesse fazendo isso em todo esse tempo de escola. Estávamos em uma pequena escadaria que dava ao anda superior, devido ao horário de aula, o local estava totalmente deserto e continuaria assim por um bom tempo.
Encostei-me na parede, enquanto ela sentou no degrau, olhei pro teto e comentei:
-Você é do mau. Obrigando-me a gazear aula, sua única sorte é que você é um pouquinho maior que eu.
-Bateria em uma mulher, senhor Talles?
-Eu bateria em você, senhorita Sabrina.
De repente sua feição fechou de tal modo, que nunca tinha visto antes, algo naquele olhar me mostrava que eu não tinha escolhido as palavras certas... Apenas gesticulei:
-Lembra que você não é humana? Por causa da matemática e o vôlei...
Então aquele olhar sério meio que caiu no chão como uma mascara, e por trás dela um olhar delicado, inocente, surgiu. Perguntei não entendendo:
-O que foi?
De repente um vago sorriso escorreu dos lábios dela e uma frase constrangedora ela soltou:
-Você é tão fofo!


De repente fiquei com o rosto vermelho, sem palavras, ela percebeu e continuou a me fitar com aquele olhar de mãe que ver pela primeira vez o filho recém nascido, eu não consegui entender o que se passava ali. Tinha algo misterioso nessa historia toda... E eu tinha até medo de descobri o que.
Então me sentei ao lado dela, um degrau acima, só assim nossa altura se nivelava. Tentei mudar de assunto:
-Então, você vai à festa no sábado?
-Só se você for... Não quero ficar sozinha lá.
-Até parece... O Carlos vai.
-E o que, que tem?
-Ele te faz companhia.
-Eu nem sou tão intima dele assim.
-Nada que alguns minutos de conversa não resolvam.
-Ele tá te pagando alguma coisa?
-Como assim?
-Sei lá... Fica falando dele aí... Desse jeito... Não parece você.
-Acho que Carlos é melhor companhia do que eu nessas horas, se tiver comigo a festa vai ser bem chata.
-Por que você faz isso?
-Isso o que?
-Fica se humilhando... O que tá tentando fazer?
-Eu... Nada, só acho que talvez seja melhor assim, mas se você não quiser não tem problema, eu vou.
De repente ela pegou em minhas mãos, aproximou o rosto do meu com seriedade e disse:
-Não há uma única garota da escola que não gostaria de estar com você naquela festa. Você deixa todo mundo feliz. É incrível...
-Ta falando de que?
-De mim. De você. O Único motivo por não ter mudado de escola.
-Verdade...?
-Você é o melhor amigo que eu já tive.
Essas ultimas palavras me doeram o coração. Quando a palavra amigo é posta deste modo em uma frase significa que “você ta fora”, perdeu o jogo. Jamais vai conseguir mais que um abraço!
-Amigo...? –Minha voz saiu nítida e sem alteração devido ao momento, foi quando ela percebeu o que eu realmente sentia por ela.
Houve um minuto de silencio. Como se ela tivesse procurando uma forma de dizer um “não” menos devastador, e quando eu já iria abri a boca pra pedir que ela não falasse nada e que eu já tinha entendido tudo, ela me beijou.
Foi um beijo tímido. Mas perfeito.

Coisas que acontecem, pt 03.

-Tou investindo na Ana.
-Aquela que é descendente de japonesa?
-Essa mesma, fiquei sabendo que toda asiática adora um negão.
-Quem te falou isso?!
-Tu nunca ouviste?
-Não!
-Tu tá é por fora...
-Mas ela num só é uma descendente de asiática? Essa tua regra aí vai funcionar?
-Tanto faz, eu não sou cem por cento negro mesmo, meu tataravô era índio.
-Ah... Você já me falou. Aquele que uma vez conseguiu fazer um guepardo de montaria?
-Não, esse é o meu tio Sebastião. O meu tataravô que uma vez enfrentou um urso da montanha com as mãos nuas.
-Sério?
-É.
-Legal... Mas agora diga seu ultimo pedido...
-Ultimo pedido? Pra que?
-Porque você morreu! Segura essa granada aí!
-Ah, não! Filho duma...
Falando da situação
Foi na segunda semana de aula que nossa aproximação aumentou consideravelmente.
Ela veio até mim certa tarde, já corriam uns boatos no colégio que ela tava ficando com o Carlos, o bonitão da escola, aquele que toda garota é afim, então Sabrina me perguntou:
-Ta ocupado mais tarde? –A nossa conversa era sempre sem emoção, um negocio sério, sem muitas respostas ou perguntas longas, indo direto ao ponto.
Se eu fosse outro garoto, já alimentaria falsa esperanças de que ela me chamaria pra fazer algo mais “intimo”, mas como não sou respondi sem dar muita importância:
-Não. Depois do almoço tou livre.
-Tem como você me ajudar com a atividade de literatura?
-Pode ser.
-Tá certo então.
Quando a aula terminou fui até a cadeira dela, vi um livro de matemática, peguei o livro, era pareceu não ter se importado. Era um livro que só continha questões, que variavam por níveis... Ela já tinha respondido pela metade. Perguntei devolvendo o livro enquanto ela arrumava sentadas as suas coisas:
-Gosta de matemática?
-Um pouco.
-Me surpreendo.
-Por quê? –foi a primeira vez que vi uma expressão curiosa em seu rosto, respondi:
-Achei que você fosse do tipo atleta.
-E sou.
-Então tem algo errado. Você deve ser uma péssima jogadora.


-Fui convidada pela seleção de vôlei da escola.
-Então você não é humana. Talvez uma mutação genética.
Ela sorriu. Também foi a primeira vez que há vi sorri, ela comentou:
-Você ta dizendo que “inteligência e músculos” nunca vão se encaixar em um único corpo.
-Exatamente.
-Você não é o primeiro a dizer isso.
-Quer dizer que essa minha opinião é compartilhada por outras pessoas? –Eu fingi surpresa, e ela ficou meio confusa ao responder:
-Sim, eu acho.
-Ainda bem...
-Por quê?
-Ninguém nunca concorda comigo.
-Ah... Isso explica muita coisa.
Enfim fomos até a biblioteca, onde tentei ajudá-la com a atividade.
Depois das nossas conversas sobre quais eram os melhores poemas, os românticos ou os realistas, então, ainda com o olho em um livro, Sabrina comentou:
-Você é um bom professor.
-Sou não, o assunto que é fácil.
-Então eu sou burra por não entendê-lo? –ela levantou o olhar pra mim com certa seriedade, com um sorriso de canto de boca respondi sem o menor pudor:
-Isso mesmo.
-Humildade não é o seu forte, né?
-Com certeza literatura não é o seu.
-Por que você ta desviando do assunto?
-Não gosto de falar de mim.
-Cutuquei a ferida, o ego do rapazinho é grande.
-Talvez... Mas gosto dele, me faz companhia nas tardes monótonas.
-Você ta fugindo de novo. O que foi? Seu ego não gosta de confrontos diretos?
-O que meu ego gosta não importa, só sei que tou com sede, vou pegar um refri.
-Vai fugir?
-É. Seus argumentos são poderosos, tenho que repensar os meus, na volta à gente continua.
-Traz um pra mim.
-Vou pensar no seu caso... Não sei se meu ego vai deixar...
Por incrível que pareça essa foi uma das conversas que mais nos tornou intimo. Sempre inventávamos essas pequenas batalhas.

Coisas que acontecem, pt 02.

Quando ela achegou na escola os professores pediram-me que eu a auxiliasse no que fosse preciso. Uma garota muito bonita: cabelos curtos e loiros, com quase um metro e oitentas, pernas e corpo de uma atleta. Enfim, uma garota que todo jovem deseja, inclusive eu. Mas sei quando a areia é demais pro meu caminhãozinho (meus pobres um metro e sessenta e dois), então arranquei logo todas as minhas esperanças e comecei a tratá-la como se fosse um amigo meu, desses que jogam vídeo-game, conversam sobre mulher, filmes violentos... Essas coisas, mas antes disso muita coisa aconteceu, e eu vou relatar mais adiante.
O nome dela é Sabrina. Tipo a bruxa da TV. Ela não gosta dessa comparação...
Então me apresentei e fomos para o almoço juntos, foi nossa primeira conversa.
Ainda corria aquele clima estranho, estávamos sentados em uma mesa da lanchonete da escola, pra quebrar o gelo perguntei:
-Gostou do colégio?
-É cedo pra responder... –comentou sem mostrar muito interesse na conversa, eu continuei:
-É verdade, mas alguma opinião de primeira impressão?
-Parece legal. Estuda aqui desde quando?
-Desde o primeiro ano.
-Deve conhecer bastante gente então? –ela perguntou como se isso fosse algo importante, respondi com um tom sem expiração pra mostrar que, definitivamente, não era:
-Nem tanto...
-Você parece ser um garoto chato. –ela terminou a frase como se me desdenhasse, não sei por que, mas nem liguei, a verdade foi que não pareceu um insulto, apenas respondi:
-Eu sou...

A gente conversou sobre um bocado de coisa, e o mais interessante, é que sempre chegava alguém pra conversa comigo, até aqueles que nunca tinha dito um oi, é lógico que todos eram garotos. Ficou claro que era só ela estalar os dedos e se tornava uma Deusa. No corredor as outras garotas mostravam a clássica inveja, com olhares de raivas e comentários toscos. Ela nem ligava... Eu muito menos.
Assim foi o nosso primeiro dia. Daí em diante as coisas só começaram a ficar imprevisíveis...
Falando de nós
-Então você ta pegando ela?
Meu amigo Ícaro perguntou, acho que é o meu melhor amigo, é meio difícil de saber, ele não estuda na mesma escola que eu, mas é meu vizinho desde os tempos mais primórdio. Sempre jogamos vídeo-game nos fins de semana, e hoje não é diferente para um domingo. Então respondi a pergunta dele sobre Sabrina:
-Que nada. Não dá pra mim. –estava mais concentrado no jogo do que na conversa.
-Por que não? É patricinha?
-Longe disso... Ela é do vôlei, tipo atleta, sabe?
-Sei... Mas não entendi porque você ta com medo dela. –ele fez cara feia depois da pergunta, tinha percebido que eu havia encurralado-o no jogo.
-Eu não estou com medo dela, só acho que não vai rolar... -silencio que precedeu um grito de minha vitória na batalha virtual:
-Gostou dessa, safado?! Um tiro bem na testa.
-Merda... -resmungou já iniciando outra partida. -E aí?! Vai ficar só nisso então? Não vai tentar nada?
-Tou pensando em usar um rifle dessa vez.
-Tou falando da garota.
-Ah... É só isso mesmo. Já pensou se eu pego um relaxo? Vai ser ralado. –Ícaro pareceu ter compreendido:
-É verdade... Hei...
-O que foi?
-Eu tenho uma coisa pra te dizer.
-Pode falar, eu tou ouvindo.
-Eu tou bem atrás de ti!
-NÃO! Ahhhhhh! Desgraçado... Eu não tinha te visto.
-Minha camuflagem é a melhor, e com uma faca na mão eu sou um açougueiro!
-Ai, ai... Vamos de novo. Aperta start aí... E tu? Lá na tua escola? Ta com alguma guria? –mudei de assunto.

Coisas que acontecem, pt 01.

Falando de mim
É complicado envelhecer... Principalmente quando se tem dezessete anos, eu não sei se isso é só comigo, mas não me sinto confortável com o fato de perceber as coisas passando rápido demais.
Mas o que adiantará minhas suplicas ao tempo, só perderei mais tempo com isso. Porque se formos parar pra pensar no tempo, nunca chegaremos a uma conclusão descente, exceto olhar pra trás e perceber que toda essa “pensação” foi perda de tempo.
Só o fato de eu estar aqui é perda de tempo. Se eu disser “perda de tempo”, já estou perdendo meu tempo pensando nisso. Mas que saber... Não tou nem aí. O tempo é só mais uma coisa que teremos que conviver, então deixa pra lá!
Pensamento meio maluco, mas o que esperar de uma pessoa como eu. Nunca encontrei ninguém que compartilhasse de idéia ao menos semelhante às minhas, talvez, porque eu seja muito extremo, talvez não... Você só vai saber se me conhecer. Então é melhor que comecemos. Meu nome é Talles, tipo aquele do teorema, sabe?
Estou fazendo o ultimo ano do ensino médio e como todo garoto nessa idade, sinto a pressão do vestibular, das pessoas falando que já é hora de crescer e todo esse blá-blá-blá hipócrita.
Minha vida em geral é normal, não sou órfão, não tenho nenhum parente intimo morto, meus pais são separados, tenho um irmão, estudo em uma escola mais ou menos, não tenho namorada (se bem que sinta falta de uma...) e tantas outras coisas.
Talvez por ser assim tão normal esse conto não tenha graça. Mas é apenas um relato de como às vezes as coisas podem, ou não, acontecer.
Chega de enrolação... Vamos à parte interessante da minha vida.

Falando dela
No inicio desse ano conheci uma garota na escola e me tornei muito amigo dela. Mas meio que muito mesmo, a gente faz quase de tudo junto. Aconteceu no inicio do ano letivo, nos primeiros dias de aulas, eu sempre fui um estudante razoável, sem muitas notas baixas... Minha mãe sempre disse que eu era um garoto muito inteligente, só me faltava esforço pra esse negócio de estudo. Com isso me tornei um tanto popular com os professores, meu carisma também não era de se jogar fora.
Meu grupo de amizades na escola era vasto, mas pouco usual, eram extintas as pessoas que me cabia conversar mais que monossílabas, em especial a Lílian, que estudou comigo na terceira série. Ela é legal, meio extrovertida demais, mas é isso que a torna interessante, eu acho... Pelo menos para os outros garotos, na verdade o que gosto nela é a forma com que lida em determinadas situações os seus problemas. Ela joga tudo pro alto, usando pouco de bom senso: “só é bom quando faz mal!”, ela vive a me dizer quando nego algo que julgo desnecessário.
A verdade é que já rolou algo ente nós, terminou simplesmente porque nossas diferenças não se encaixavam, mesmo assim continuamos amigos.
Mas o momento mais importante da minha adolescência não é com a Lílian, é com outra garota... Foi ela quem deu graça ao meu ensino médio, transformando o que seria um simples passeio de barco no lago, em uma expedição a ilha do tesouro em um navio pirata! Talvez seja exagero... Mas pra mim, pouco importa.