-Tou investindo na Ana.
-Aquela que é descendente de japonesa?
-Essa mesma, fiquei sabendo que toda asiática adora um negão.
-Quem te falou isso?!
-Tu nunca ouviste?
-Não!
-Tu tá é por fora...
-Mas ela num só é uma descendente de asiática? Essa tua regra aí vai funcionar?
-Tanto faz, eu não sou cem por cento negro mesmo, meu tataravô era índio.
-Ah... Você já me falou. Aquele que uma vez conseguiu fazer um guepardo de montaria?
-Não, esse é o meu tio Sebastião. O meu tataravô que uma vez enfrentou um urso da montanha com as mãos nuas.
-Sério?
-É.
-Legal... Mas agora diga seu ultimo pedido...
-Ultimo pedido? Pra que?
-Porque você morreu! Segura essa granada aí!
-Ah, não! Filho duma...
Falando da situação
Foi na segunda semana de aula que nossa aproximação aumentou consideravelmente.
Ela veio até mim certa tarde, já corriam uns boatos no colégio que ela tava ficando com o Carlos, o bonitão da escola, aquele que toda garota é afim, então Sabrina me perguntou:
-Ta ocupado mais tarde? –A nossa conversa era sempre sem emoção, um negocio sério, sem muitas respostas ou perguntas longas, indo direto ao ponto.
Se eu fosse outro garoto, já alimentaria falsa esperanças de que ela me chamaria pra fazer algo mais “intimo”, mas como não sou respondi sem dar muita importância:
-Não. Depois do almoço tou livre.
-Tem como você me ajudar com a atividade de literatura?
-Pode ser.
-Tá certo então.
Quando a aula terminou fui até a cadeira dela, vi um livro de matemática, peguei o livro, era pareceu não ter se importado. Era um livro que só continha questões, que variavam por níveis... Ela já tinha respondido pela metade. Perguntei devolvendo o livro enquanto ela arrumava sentadas as suas coisas:
-Gosta de matemática?
-Um pouco.
-Me surpreendo.
-Por quê? –foi a primeira vez que vi uma expressão curiosa em seu rosto, respondi:
-Achei que você fosse do tipo atleta.
-E sou.
-Então tem algo errado. Você deve ser uma péssima jogadora.
-Fui convidada pela seleção de vôlei da escola.
-Então você não é humana. Talvez uma mutação genética.
Ela sorriu. Também foi a primeira vez que há vi sorri, ela comentou:
-Você ta dizendo que “inteligência e músculos” nunca vão se encaixar em um único corpo.
-Exatamente.
-Você não é o primeiro a dizer isso.
-Quer dizer que essa minha opinião é compartilhada por outras pessoas? –Eu fingi surpresa, e ela ficou meio confusa ao responder:
-Sim, eu acho.
-Ainda bem...
-Por quê?
-Ninguém nunca concorda comigo.
-Ah... Isso explica muita coisa.
Enfim fomos até a biblioteca, onde tentei ajudá-la com a atividade.
Depois das nossas conversas sobre quais eram os melhores poemas, os românticos ou os realistas, então, ainda com o olho em um livro, Sabrina comentou:
-Você é um bom professor.
-Sou não, o assunto que é fácil.
-Então eu sou burra por não entendê-lo? –ela levantou o olhar pra mim com certa seriedade, com um sorriso de canto de boca respondi sem o menor pudor:
-Isso mesmo.
-Humildade não é o seu forte, né?
-Com certeza literatura não é o seu.
-Por que você ta desviando do assunto?
-Não gosto de falar de mim.
-Cutuquei a ferida, o ego do rapazinho é grande.
-Talvez... Mas gosto dele, me faz companhia nas tardes monótonas.
-Você ta fugindo de novo. O que foi? Seu ego não gosta de confrontos diretos?
-O que meu ego gosta não importa, só sei que tou com sede, vou pegar um refri.
-Vai fugir?
-É. Seus argumentos são poderosos, tenho que repensar os meus, na volta à gente continua.
-Traz um pra mim.
-Vou pensar no seu caso... Não sei se meu ego vai deixar...
Por incrível que pareça essa foi uma das conversas que mais nos tornou intimo. Sempre inventávamos essas pequenas batalhas.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
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